O Gerês de H. F. Link...


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«Descemos a encosta destas montanhas junto de um grande povoado chamado Vilar da Veiga e seguimos o caminho do vale. Um curso de água rápido, o Rio das Caldas, lança as suas águas com frémito pelo meio deste vale, as montanhas elevam-se e tornam-se mais escarpadas e quando se avançou cerca de uma légua, uma pequena aldeia de quarenta casas depara-se subitamente atrás de uma pequena colina. Este lugar é afamado pelos seus banhos quentes: eis por que lhe chamam Caldas do Gerez. Demoramo-nos aqui quatro semanas para estudar as curiosidades naturais que se encontram na montanha. Era o tempo em que se tomavam as águas minerais: havia aí por isso também bastante gente.

 

O vale onde este povoado está instalado é muito estreito. Para Este, as casas estão acostadas contra a montanha; para Oeste, banha-as um pequeno ribeiro tal como o sopé duma outra montanha; ao Norte, o vale eleva-se abruptamente; ao Sul é limitado por uma colina.

 

As montanhas são muito altas, rochosas, desprovidas de florestas; não é senão nas proximidades do ribeiro que se encontram árvores, os carvalhos, os vidoeiros (rhanus frangula), os azereiros (prunus lusitanica); quanto às oliveiras não se encontram senão nas margens do ribeiro. As montanhas estão cobertas de tojos densos e impenetráveis,

 

Distinguem-se no meio delas os abrunheiros (arbutus unedo) nas margens dos ribeiros, de 6, 8 a 12 pés de altura, os azereiros e duas espécies de codeços (procerus et viliosissimus) que ainda não foram descritos. Nos cumes elevados vêem-se carvalhos dispersos, de uma espécie particular. Descendo para o Sul as montanhas são estéreis, e não produzem senão tojo e urze sobretudo as cistus scabrosus, Ah. cheiranthoides, Lam. et d’Erica umbeilata. Desde há alguns anos este sítio é frequentado por causa dos banhos; o número de casas aumenta sempre, de modo que este lugar, pouco extenso, em breve não oferecerá mais espaço. Os banhos atraem aí pessoas vindas desde a mais pequena cidade do Minho e acontece muitas vezes que os ingleses do Porto visitam estes banhos. Porque o seu clima é muito rigoroso, os habitantes deslocam-se para Vilar da Veiga no Inverno e aí regressam em Maio. As casas são construídas em pedra; todas de um piso de altura, não têm senão quartos muito pequenos e fracos, a maior parte sem caixilhos de vidro, o soalho esburacado; os móveis não passam de uma mesa grosseiramente trabalhada e as cadeiras igualmente más; é-se obrigado a prover-se do restante mobiliário. Enganar-se-ia quem pensasse encontrar aqui habitantes e ser servido: ordinariamente não fazem senão abrir a casa e pôr à disposição do estrangeiro as suas quatro paredes. Para alimentação encontra-se apenas a carne de vaca, arroz, laranjas, vinho da região, que é bastante azedo, e às vezes vinho de uma melhor qualidade do Douro e muito raramente peixe. Açúcar, especiarias, café e as restantes provisões, é-se obrigado a fazê-las vir de Villar da Veiga, que é a uma légua de distância; mesmo aí esses artigos são raros. Há aqui porém um boticário, mas quanto a médicos, não se encontram. Um pequeno espaço de algumas centenas de pés de comprido e largo constitue o passeio. Ir de carro aos arredores é uma coisa impossível: as pessoas débeis e as mulheres viajam de liteira como em muitos outros lugares montanhosos de Portugal, que em vez de serem transportados por homens, como se pratica entre nós, são-no por dois cavalos. Caldas, nos limites do Reino, escondido numa região selvagem, está quase esquecida pelo governo.

 

As nascentes de água quente brotam do lado Este e saem de um penedo de granito, no sopé de uma alta montanha. Há quatro, cada uma com seu nome particular, por exemplo, da Figueira, por causa da figueira que a ensombra, do Bispo, etc. Sobre cada uma delas construiu-se uma pequena casa quadrada, no meio da qual há um fosso em pedra para que se possa banhar. Não pode aí entrar senão uma pessoa de cada vez. Um pano faz as vezes de porta. Quando ele está descido é uma prova de que alguém está no banho: mas as mulheres desconfiam um pouco dos olhares dos homens e colocam uma criada à porta. A água que se bebe colhe-se no sítio onde ela jorra da rocha, antes que vá lançar-se nos banhos.

 

Uma destas fontes contém gás sulfuroso, mas em pequena quantidade; as outras fontes têm menos. Uma delas parece mesmo total mente desprovida. Por outro lado, a água não produz nenhum efeito visível sobre os reagentes que levávamos, por exemplo, sobre o salitre, o antimónio, mas ela parece pelo contrário muito límpida. Os graus de temperatura variam. Há uma que é sensivelmente mais quente que a das Caldas da Raynha. A temperatura não ultrapassa porém os 400 de Réaumur e pode-se tomar banho na mais quente.

 

Tomam-se estas águas minerais desde o mês de Junho até ao mês de Agosto. É verdade que no vale estreito a temperatura é muito quente, mas os nevoeiros das montanhas refrescam-no muitas vezes. A gente levanta-se às quatro horas da manhã, toma banho depois de beber a água e em seguida passeia-se até às sete horas.

 

Depois de ter descido para o vale, segue-se o caminho por sob o povoado, que é muito escarpado. As pessoas fracas do mesmo modo que as mulheres, montam uma mula ou um asno. De regresso almoça-se e janta-se ao meio dia. Depois de jantar faz-se a sesta. Toma-se banho ainda às quatro horas e bebe-se água; faz-se um segundo passeio no momento em que o sol abandonou o vale; em seguida reúnem-se em convívio para tomar chá ou para jogar e depois das dez horas cada um recolhe-se a sua casa, para tomar uma ligeira ceia. Eis o género de vida que se leva neste sítio afastado. A dieta que aí é prescrita e que a tradição transmite, já que não há aqui médico, é igual mente severa e ridícula. O pedantismo e a charlatanice destes fulanos chegou mesmo até aqui. Elogiam-se muito os efeitos do banho. Não há dúvida que os banhos quentes devem operar efeitos salutares; mas é preciso também entrar em linha de conta com os que produzem os passeios, a mudança de ar, a dieta prescrita ou mais ainda a dieta forçada, pois há aí falta de todas as coisas. Os simples bebedores d’água melhoram provavelmente por esta última razão.

 

O tom da sociedade depende dos homens que a compõem. A nobreza do Minho, que é pobre, mas muito numerosa, forma a grande maioria. Esta nobreza vale talvez mais que a nobreza rica que está junto à Corte, mas é orgulhosa como toda a nobreza portuguesa, ainda que seja difícil disso se aperceber na primeira conversa e através da cortesia nacional. Mesmo neste pequeno local, a sociedade das pessoas de distinção faz o generoso sacrifício do seu próprio prazer, estabelecendo as linhas de demarcação que muitas vezes separa a sociedade verdadeiramente polida daquela que não tem senão o nome. Uma mulher de alta condição nunca sai sem que o seu escudeiro vá à frente uns vinte passos, levando a sua sombrinha na mão. Uma dama de distinção, sujei/a a histerismos, faz-se mesmo seguir por um criado que leva um turíbulo. A gente de sociedade é de resto muito pouco numerosa e ficamos por isso muito admirados um com o outro, por aí passarmos o nosso tempo sem constrangimentos e nos divertirmos segundo a nossa fantasia. O espírito satírico dos Portugueses mostrou-se mesmo num jogo que tínhamos feito sobre as pessoas que compunham a sociedade. As mulheres não são porém intratáveis e podemos passar horas agradáveis sob os bosques frondosos formados por azereiros, ao lado dos quais os riachos se precipitavam das montanhas: estava-se assim ao abrigo dos olhos indiscretos. Estas raparigas encantadoras, muitas vezes de uma condição elevada e que receberam uma educação esmerada que são sensíveis às belezas da poesia, aos versos ternos gravados sob a casca dos azereiros, entretêm-se, porém, entre si numa ocupação muito desagradável, que é a de se catar mutuamente a piolhada.

 

A Serra do Gerez estende-se, falando de um modo geral, de Este para Oeste, mas muitas das suas formações dirigem-se para Sul. O vale onde Caldas fica situado, toma a mesma direcção: eleva-se de maneira crescente para Norte, mas somente até um certo ponto; desce de novo para as fronteiras da Galiza, a três léguas de Caldas. De seguida torna-se cada vez mais compacta, torna-se rochosa e está coberta de floresta. Caminha-se por fim à sombra de carvalhos elevados e frondosos: com riachos que murmuram em redor e vislumbram-se blocos rochosos nus e retalhados, a montanha toma um aspecto selvagem e majestoso.

 

(LINK, Heinrich Friedrich — Voyage en Portugal depuis 1797 juqu’en 1799... traduit de I’Allemand, Tome seconde, a Paris, 1803, pp. 12-19)