O Vale [encantado] de Albergaria... 


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N o WIKILoc...

 

 

[Encantado] encantar, incantare: in=em; cantare="cantar", aqui com o sentido de "emitir palavras mágicas". Então encantar será "emitir palavras mágicas e lançá-las em alguém". Ou, então, "lançar um feitiço em alguém".

 

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In...  

... cantare.

 

É o que se sente ao percorrer, como nós fizemos num dia soalheiro de inverno, o caminho desde a fronteira de Portela do Homem até aos antigos viveiros de trutas da Mata.

 

 
Fronteira...  

Início.

 

A caminhada iniciou-se mesmo junto à fronteira. Percorridos cerca de 100 metros, em direção à ponte de S. Miguel (ou sobre o Rio Homem, junto à cascata que se avista da estrada), eis que, do lado direito, ficaram visíveis os Prados de S. Miguel.

Existe um cadeado que impede a passagem de veículos daí para a frente. Não nos podemos esquecer que só os residentes e os apicultores podem abrir esse cadeado e passar até à primeira casa florestal (construída na década de 50 para albergar os guardas da fronteira), onde existe uma colmeia.

 

 
Fechado...  

Prados.

 

Os prados de S. Miguel, no inverno, encontram-se com erva muito rasteira e serviam para a alimentação do gado dos habitantes de Vilarinho das furnas na época fria. No verão utilizavam mais os prados Caveiros, na costa da Sabrosa.

 

 
Geira..  

Carvalho.

 

Passámos os prados e entroncámos no caminho da Via Nova (Geira) que, a partir daí, seguimos até ao nosso destino.

 

 

 
Água...  

...

A Via Nova veio substituir a Via XVII que ligava, também, Braga e Astorga. Esta última via seguia a mesma direção da atual estrada EN103 que liga Braga a Chaves. Os Romanos, povo inteligente e culto, perceberam que, para as formas de transporte existentes na época - a cavalo e a pé, a Via XVII era muito longa e com grandes declives. Por isso, desenharam a Via Nova, ou Via XVIII, com um traçado sinuoso mas que, por subir menos graus em cada milha, tornava-se menos cansativa fazendo o caminhante ou o cavalo menos esforço.

 

 
Pontão...  

Lameiro.

 

Passámos por um pequeno pontão em pedra e chegámos à primeira casa florestal, quase coberta já pela vegetação. Essa casa é antecedida por um pequeno lameiro encimado pelas colmeias referidas no início.

 

 
Colmeias...  

A narureza, tomando conta.

 

Parámos e apreciámos o silêncio, apenas cortado pelo zumbido das abelhas a aproveitar as primeiras flores que brotam das árvores ladeando o caminho.

 

 
Continuando...  

A água, sempre presente.

 

Seguimos, Geira abaixo, sempre com um enorme cuidado porque, nesta parte da Via Nova, as pedras encontravam-se arrancadas do caminho e mergulhadas, por vezes, numa corrente de água que pode fazer escorregar o mais cuidadoso dos seres humanos. Contudo, tínhamos o privilégio de ver a via pavimentada, com calçada original, numa descida suave até ao rio Homem.

 

 
Privilégio...  

À direita...

 

Ouvindo já o troar das águas do rio Homem, que se aproximava rapidamente, derivámos à direita para apanharmos a direção da ponte hidráulica sobre o este curso de água, junto ao local onde, até ao séc. XVII, existia a ponte de S. Miguel, destruída após a reconquista da independência de Portugal, depois do domínio filipino. Ainda são visíveis as guardas da ponte original que fazia parte do traçado da Via Nova e possibilitava a passagem da última grande barreira da Serra.

 

 
Troar da águas...  

Elemento.

 

Acabava ali a descida maior deste troço: passámos dos 750m de altitude da Portela do Homem para os 670m na nova ponte.

 

 
Ponte da Via Nova...  

O rio Homem.

 

Passámos a ponte apreciando-a, apreciando o rio e antecipando o encantamento do bosque de carvalho e faia que à nossa frente se deparava.

 

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Passagem a vau...  

Ribeira de Monção.

 

No trajeto entre a Ponte Nova e a milha XXXIII pudemos observar alguns elementos interessantes da construção da via. Primeiro, uma passagem a vau sobre a ribeira de Monção.

 

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Passagem hidráulica...  

Azevinho.

 

A Via Nova passa ao nível da ribeira mas, atualmente, existe uma passagem hidráulica para o caminhante, feita em madeira. Para a apanhar fizemos um pequeno desvio facilmente percetível.

 

 
Caminhante...  

Oficina de talhe.

 

Depois, pode observar-se uma das pedreira que terá alimentado a oficina de talhe dos blocos, utilizados para erguer a original ponte de S. Miguel.

 

 
Extração...  

Pavimento plano.

 

Por fim, uma pedreira para a extração dos marcos miliários usados na marcação da milha XXXIII.

 

 
Sítios sagrados...  

Estranho sentimento.

 

Aqui, o pavimento plano, por isso, confortável para os pés, encontra-se mal conservado, estando reduzido a uma camada de calhaus, constituindo o leito de preparação da Via.

 

 
Sombras...  

Corpos definidos.

 

Desde a ponte sobre a ribeira de Monção que somos assaltados de um estranho sentimento de regresso ao passado, onde o tom bucólico dos carvalhos e das faias se mistura com as sombras projetadas no húmus, pelos raios tímidos de sol de uma tarde de inverno, nos leva a suspeitar que somos seguidos por elementos corpóreos que se transformam, de repente, em corpos definidos, representando o comerciante que atravessa a Geira no seu cavalo, o soldado que leva a missiva ao comandante ou o lavrador que, pacientemente, agarra a junta de bois deixando no ar o silvo da madeira.

É um momento estranho.

Parece que, de repente, ficamos extasiados perante tanta beleza. No coração deste vale, diante do silêncio entrecortado pelo ruído do rio, assumimo-nos encantados perante tamanha beleza.

 

 
O rio acompanha-nos...  

Momento estranho.

 

Chegámos, então, à milha XXXIII. Neste local, onde pode parar e saborear o encantamento, está a uma altitude de 660 metros. São, ao todo, 20 marcos miliários representando sempre a mesma milha mas em épocas diferentes. Atualmente apenas se conseguem ler as inscrições em quatro miliários e elas referem-se ao século III: Maximino e Máximo (238); Décio (250); Tácito (276); Carino (283-285) e Maximiano (285-305).

 

 
XXXIII...  

Ponte feia.

 

Está na zona da ponte Feia e a ruína que daí é, claramente, visível servia, assim como a primeira, logo a seguir aos prados de S. Miguel, para a habitação aos guardas fiscais que vigiavam a fronteira da Portela do Homem.

 

 
Marco.  

Maximiniano.

 

Continue a apreciar o encantamento deste sítio, seguindo a Geira.

 

 
Continua o encantamento!  

Geira.

 

Passados 30m encontrámos do lado direito uma ponte em madeira (Ponte Feia) que atravessa o rio Homem e dá acesso, do outro lado, às lagoas do Vale de Albergaria onde, no verão, pode refrescar-se e preparar-se, assim, para o resto da jornada.

 

 
Ponte feia.  

Cascatas de Albergaria.

 

Retomámos a Geira e, virando à direita quem vem da ponte referida, fizemos a última parte deste regresso.

 

 
Refrescante...  

Na ponte, à direita!

 

A Via Nova, aqui, continua plana mas sinuosa, mantendo o destino do encantamento. Por aqui domina o carvalho que, protegido, cresce à procura do Sol. A faia outonal deslumbra, nesta altura, com as suas tonalidades vermelhas. Elas são os verdadeiros protagonistas. São elas e o Sol as culpadas por sentirmos um calafrio de emoção despertado pelo déjà vu constante.

 

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Faia outonal...  

Calafrio.

 

Passámos as fontes secas e, rapidamente, ao virar da curva, acabámos vendo a outra margem da Ribeira da Maceira com a estrada já em terra batida em direção a S. João do Campo.

 

 
Fonte seca...  

Virar da curva...

  

 

 
...  

Companhia.

 

Mas o conto não acaba aqui.

 

 
Laje...  

Ao longe...

 

Rapidamente, percorremos os metros que faltavam até à próxima ponte de madeira, sobre a ribeira do Forno, onde se pôde apreciar os restos da ponte original romana, tanto nas margens como no leito da ribeira.

 

 
Ribeira do forno.  

Ponte Nova.

 

 

 
Pedras caídas.  

Montante.

  

Do outro lado da ponte estava o nosso destino. Chegámos aos antigos viveiros de trutas e podemos apreciar mais uma ponte, desta feita sobre o Rio da Maceira ou Macieira. Mais uma vez, trata-se de uma ponte de madeira construída no exato local onde existia uma ponte romana que fazia parte da Via Nova.

 

 
Rio Maceira.  

Viveiros.

 

Estas duas pontes, assim como a já referida ponte de S. Miguel, foram desmanteladas no contexto da guerra da restauração, em meados do século XVII.

 

 
Outros tempos... outras vontades!  

Peito de Albergaria.

 

Depois do descanso, é hora de se deixar reencantar fazendo de novo o circuito, até à fronteira da Portela do Homem.

 

 
Reencantar...  

...

 

 
...  

...